Despejou o leite já fervido na tigela do bolo da avó, deu-lhe um beijo carinhoso no rosto e voltou para seu quarto com a colher na mão, como uma criança que recebia um prêmio!
Tratou de se trocar e pentear, para poder sair e ajudar nos preparativos da festa. Abriu as janelas e se deparou com um dia lindo e, por alguma razão, sentiu que as coisas podiam ser diferentes. Saiu cantarolando e cumprimentando a todos. Um dos anciãos pediu a ela que fosse a floresta colher flores, o máximo que pudesse, para preparar as coroas e enfeitar os vasos. Isso ela fez de bom grado, Chiharu possuía uma paixão inexplicável por aquelas pequenas criaturas tão belas, e principalmente pelas rosas!
Conforme caminhava, o cesto que carregava ia, aos poucos, enchendo-se das mais variadas flores, mesmo que a garota as escolhesse minuciosamente antes de colhê-las. Quando se deu conta, estava tão dentro da floresta que os raios de sol lutavam para escapar das folhas das enormes e centenárias árvores que pareciam viver unicamente para bloquear toda e qualquer visão do céu. Mas, de uma maneira maravilhosa, a penumbra tornava aquele lugar ainda mais magnífico! Com o ambiente húmido, ainda era possível ver as pequenas gotas de orvalho sobre as folhas verdes, reluzindo a cada toque de pequenos raios de sol que, orientados pelo vento nas folhas da copa das grandes árvores, conseguiam chegar até ali.
Foi ali, quando seguia um pequeno raio fugitivo, torcendo para conseguir encontrar sua fonte antes de uma rajada de vento sentida somente pelas árvores mais altas, que Chiharu se deparou com ele! Não era possível ver seu rosto, mais suas vestes denunciavam-no. Ainda pensava em como ele havia conseguido chegar lá em cima, quando algo escorreu do alto e pingou no chão, bem próximo dos pés da jovem. Ela deu um pequeno salto parta trás, acompanhado de um gritinho histérico ao perceber que uma poça de sangue – aparentemente vinda do garoto – se formava ali! O cesto de flores caiu no chão, esparramando todo o conteúdo tão atenciosamente colhido. Mas ela não percebeu, ou não deu importância, sua mente agora agia da forma mais racional possível, analisando qual seria a forma mais fácil e rápida de chegar lá em cima. Afinal, se ele perdera tanto sangue a ponto de formar uma pequena poça, devia estar muito ferido!
Cerca de dez minutos depois ela estava a poucos galhos de distância, perto o suficiente para perceber que – mesmo estando com o kimono coberto do sangue vindo dos inúmeros ferimentos de seu corpo – o garoto parecia dormir suavemente. Garoto? Não, não era um garoto, era um jovem. Um lindo jovem, que devia ser alguns anos mais velho que ela. Quando se deu conta de seus pensamentos, ralhou baixinho consigo mesma por ser tão desumana! Ela – sem entender direito como – consegui equilibrar-se e passar para o galho – graças a Deus, suficientemente grosso para agüentar o peso dos dois – em que ele estava. De modo desajeitado passava por cima dele, tentando chegar até seu rosto para conferir se ele ainda estava vivo. Quando estava a centímetros de sua testa conseguia ouvir sua respiração e – que droga! – admitir que ele era ainda mais bonito de perto. Possuía longos cabelos prateados, quase maiores que o da própria Chiharu! E sua pele? Parecia feita de pétalas de rosas brancas, tão clara e macia parecia ser. Impulsivamente, ela levou uma das mãos até o rosto do outro, no intuito de afastar uma das mechas de seu cabelo que escondia o resto de seu semblante. Assim que o tocou ele abriu os olhos assustado! E após meio segundo de confusão, seus olhares se encontraram! Chiharu sentiu sua mente vagar em meio aqueles olhos tão intensamente azuis! E o mesmo se deu com o outro, ao fitar as enormes íris cor-de-esmeralda da garota! Os segundos pareciam eternidades, até ela perceber que estava quase deitada sobre o corpo dele, ficando tão vermelha - a ponto de seu rosto parecer o reflexo de seus cabelos - e sair dali para um outro galho, muito desastradamente.
Sentando-se e olhando para baixo como quem analisa algo, o garoto não dizia nenhuma palavra, o que só contribuía para aumentar o desconforto dela. E então – mesmo que estivesse acontecendo diante de seus olhos ela não conseguia acreditar – ele saltou! Tão calmamente quanto quem pula os dois pequenos degraus da entrada de casa. Ele já estava no chão, em pé, e muito seguro – ou tão seguro quanto poderia estar em meio a tantos ferimentos – quando ela começou a calcular quanto tempo levou para conseguir subir ali. Lá de baixo, ele começava a olhar para ela. E encará-la descaradamente, como se estivesse dizendo “Hey! O que está esperando para descer?”. Ela olhava-o de volta aflita! Ele não esperava que ela pulasse não é? Oras, só faltava essa! De jeito nenhum! Antes que ela pudesse responder, o garoto se abaixou e apoiou uma das mãos no chão. Parecia estar se concentrando para fazer algo. Então – como se tudo aquilo já não fosse estranho e surreal o suficiente – duas enormes assas se materializaram em suas costas! Cada qual tão machucada quanto todo o conjunto de membros dele. Neste segundo Chiharu decidiu que estava sonhando. E ainda achava quando ele alçou vôo em sua direção e a tomou nos braços. Ela se segurou em seu pescoço como toda donzela faria em uma daquelas histórias que se conta quando se está ao redor de uma fogueira. Ainda sentia-se dentro de uma dessas quando ele a pôs no chão, e provavelmente se sentiria assim por um bom tempo, não fosse o fato de o garoto ter desmaiado em cima dela poucos segundos após suas assas sumirem. Só ali, agüentando todo o peso do que ela julgara ser “mais de um metro e oitenta”, que ela se lembrou da poça de sangue e de todos aqueles machucados.
Fazendo o possível para não entrar em desespero, Chiharu o colocou deitado no chão próximo ao tronco da primeira árvore que enxergou. Enquanto tomava fôlego e finalmente ouvia alguma coisa – desde que vira o garoto seu coração pulsava tão fortemente que por alguns instantes ela acreditou que seus ouvidos logo estourariam! – consegui ouvir o som de um rio correndo. Parecia não estar longe dali. Contente, ela correu até lá, rasgou um pedaço do vestido – pensando em lamentar a perda depois – e encharcou o tecido o máximo que pôde. Voltou até onde havia deixado o garoto e com muito cuidado começou a tratar de seus ferimentos.
Uma hora depois ela acreditava ter limpado todos os machucados mais graves. As partes de cima do kimono estavam ensopadas de sangue! Ele não poderia vestir aquilo novamente. Agradecendo pela pior parte – despi-lo – já ter passado, ela fazia o melhor possível para tirar o sangue seco das vestes dele enquanto pensava.
-O que é tudo isso? Quem é esse garoto? Por que sinto tanta necessidade de ajudá-lo? E, por Deus do céu, O QUE ele é?
Essas e muitas outras perguntas rondavam sua mente quando ela voltou e sentou-se ao lado do jovem, apoiando a cabeça dele em seu colo e – sem conseguir resistir - acariciando seu rosto. Em poucos segundos ambos estavam dormindo, embalados pelos sussurros do vento e o cantarolar dos pássaros.
*-*-*-*-*
Nota da autora: Ok, segundo capítulo demorou mais chegou! XD
Eu particularmente tenho uma quedinha por esse momento da história, espero que gostem! ♥
Beijos, beijos ;*
Nota da autora: Ok, segundo capítulo demorou mais chegou! XD
Eu particularmente tenho uma quedinha por esse momento da história, espero que gostem! ♥
Beijos, beijos ;*
